A REVISTA

MEDUSA

EDITORIAL | CRISTIANE BOUGER

Coast Body. Cortesia ©Lynn Book.

LYNN BOOK

DESPALAVREANDO A QUIMERA

lynn book, artista / conceito, texto/partitura original, fotografia, desenhos, design gráfico

lynn book e cristiane bouger / design para a Abrigo Portátil

cristiane bouger / tradução

O desejo é uma polifonia sem coda

 

A mutabilidade da voz, com sua natureza inconstante, esquiva-se de ideias fixas sobre o corpo e a imaginação. Em seus percursos mais selvagens, a voz ilumina paisagens estranho-familiares, mesmo quando estas rapidamente se dissipam. Vinculada a um corpo e, ao mesmo tempo, desvinculada, a voz está sempre fazendo aparições, oferecendo promessas antes de bater em retirada. A tendência inquieta do desejo impele-nos a ser livre, mesmo temendo o que a liberdade poderia trazer. Esta ambivalência nervosa impulsiona a voz a performar sua febre necessária sobre nós, em nós.

 

A prática de dar expressão vocal aos corpos configura um emaranhado tear do corpo, self, mundo, voz, som, silêncio, imagem, música, texto, discurso, gesto, mais. Seu objetivo é produzir uma carga relâmpago para a voz e sua resistência ao poder–e ao pacto intranquilo do corpo com este. Despalavreando a Quimera (Unwording Chimaera) é uma peça parte texto, parte partitura, parte corpo, na medida em que convida a um espaço performativo para que corpos vocais possam emergir.

A tradução de Unwording Chimaera foi discutida detalhadamente com Lynn Book. Todas as decisões que implicaram em alteração semântica ou de notação da partitura em inglês foram realizadas em consonância com o trabalho da performer/compositora.—Cristiane Bouger, Nova Iorque, 2016.

Lynn Book para a Abrigo Portátil

 

Agenciamentos do corpo, voz, mundo e imaginação articulam e reconfiguram possibilidades. Com cada interesse—falado, espacializado, cantado—a linguagem se submete a uma espécie de somatização.  Os corpos aprendem a se abrir à linguagem das vozes que executam seus assuntos sonoros.  No espírito de Helen Cixous e da teoria da ‘l’ecriture feminine’, eu escrevo, vocalizo, movimento-me, orquestro corpos—corpos na mais ampla possível das fantasias. Através do meu conceito de “vocalizar/exprimir corpos”, amplio o projeto que busca escapar das forças reguladoras do poder patriarcal, e avançar para além da escrita, em direção ao imediatismo e crueza da voz em seu alcance para além das restrições da fala e do canto convencionais. Esta abordagem performativa, inter-acional tem a capacidade de despertar e ressoar significados em novas relações com outros corpos, ambientes, histórias e potencialidades.

 

A escrita é sempre uma experiência imersiva que chacoalha os ossos. Este projeto para a Abrigo Portátil não é uma exceção. O convite para oferecer uma contribuição para esta edição chegou em meio a um projeto mais amplo de mídia e performance que estou desenvolvendo, chamado Unreading for Future Bodies (Desleitura para Corpos Futuros) que pretende retrabalhar o conhecimento  criado na digisfera. Despalavreando a Quimera, também emprega o prefixo ‘un’ como anúncio de uma estratégia de desmantelamento.  Para a revista, tenho conduzido uma investigação rigorosa da elaboração textual e de partitura através de um rigor cada vez mais intenso de criatividade intelectual e vocalidade física. Eu pauso a escrita constantemente para ler, des-ler, sonorizar, mergulhar de volta, enquanto minha língua gira 10,000 vezes antes de falar*, ou escrever novamente, ou partiturar, mapear.

 

 

 

*paráfrase de uma referência há muito perdida, que, segundo me lembro, foi atribuída à Cixous, utilizada em 1991 no texto da performance tongue (língua).

Leitura de Unwording Chimaera (em processo), de Lynn Book.

The Power House Arena, Brooklyn, New York 2016.

Eu também tive a sorte de performar o texto-partitura em estágio processual em Nova Iorque, o que me possibilitou a oportunidade de brincar com formas linguísticas e construções vocais que não ocorreriam se não fosse por aquele tipo de circunstância intensificada.

 

Esta é uma forma profundamente envolvente, expedicionária de processar caminhos para vivências, não apenas em termos de animacidade, mas também viabilidade política e criatividade coletiva.  A Quimera, com ‘suas’ formas corporais impossíveis, imaginadas e marcadas com o sinal do (monstro) feminino, é uma força de transformação produtiva/destrutiva para qualquer um que estiver apto à caça—tanto nos tempos passados quanto rumo ao futuro. Dadas tais condições, tem sido uma alegria necessária realizar as marcações, perturbar as bordas e evocar este plano de contingência—e convite—para nos tornarmos.

 

 

 

Lynn Book,

Winston-Salem/Nova Iorque, 2015-16

 

Derangements – a monster study, Lynn Book,

LYNN BOOK

 

Lynn Book é artista transmídia, atuando através de disciplinas e esferas culturais com o corpo, texto, voz, materiais e tecnologias para criar performances, exposições, trabalhos em mídia e projetos públicos. Ela se ocupa com questões relacionadas ao potencial transformador entre as pessoas, prática e lugar, e é influenciada pelas teorias crítica e feminista que objetivam retrabalhar tais conceitos como parte do processo de mudança. Book foi contemplada com prêmios e subvenções pelo National Endowment for the Arts, New York Foundation for the Arts, Franklin Furnace Fund, Illinois Arts Council e MacArthur Foundation, entre outros. Seus trabalhos recentes foram apresentados em espaços em Berlim, Nápolis, Budapeste e Chicago, e seus vídeos foram exibidos no Reino Unido e na Austrália. Seu trabalho pode ser visto em diversas publicações acadêmicas e de arte, incluindo ELSE (Transart), Synthesis (Universidade de Atenas) e Anglistica (Universidade de Nápolis). Sua performance da peça de resistência Dadá “Ursonate (1922), de Kurt Schwitters, realizada em 2013, fez parte do arquivo da Penn Sound.