A REVISTA

MEDUSA

EDITORIAL | CRISTIANE BOUGER

Neil Harbisson fazendo o retrato sonoro de Stelarc. Cortesia ©Cyborg Foundation.

NEIL HARBISSON

SENTIDOS CÓSMICOS

Neil Harbisson nasceu com acromatópsia, uma condição congênita de daltonismo crônico que faz com que ele enxergue apenas em preto e branco e em escalas de cinza. Em 2003, a partir de um projeto em colaboração com o especialista em cibernética Adam Montandon, Neil começou a utilizar, inicialmente como aparato externo, uma antena com olho eletrônico, que traduzia as vibrações de cor em frequências sonoras, permitindo-lhe distinguir cores pela primeira vez. Em 2004, Neil passou por uma cirurgia clandestina para implantar a antena em seu crânio. O programador de software Peter Kese desenvolveu os sensores da antena para que pudessem captar a frequência sonora de 360 matizes de cor, que variam de volume de acordo com os níveis de saturação.

 

Como o uso da Internet enquanto um sentido—e não ferramenta—pode nos permitir estender a nossa percepção da natureza e dos nossos sentidos para o espaço sideral.

Os gatos têm caudas que lhes permitem estender o seu sentido de equilíbrio. Focas têm bigodes que lhes permitem estender o seu sentido de toque, enquanto alguns peixes têm barbatanas que lhes permitem estender o seus sentidos de movimento e presença. Eu tenho uma antena que me permite estender minha percepção da luz e do som para além dos nossos sentidos tradicionais e para além da Terra.

 

A antena—cirurgicamente implantada no meu crânio—captura ondas de luz visíveis e invisíveis—da luz infravermelha à ultravioleta—e as transforma em vibrações audíveis que viajam através do meu crânio. Para mim, a percepção da cor é um sentido autônomo da visão ou da audição. Cor é um sentido completamente novo, um sentido em si mesmo.

 

Minha cabeça também tem conexão com a Internet, o que me possibilita receber imagens e sons vindos de outras partes do mundo, diretamente dentro do meu crânio. Pessoas selecionadas—uma de cada continente—podem enviar imagens e sons para a minha cabeça utilizando os seus telefones celulares, câmeras ou microfones. Esta separação do meu corpo e dos meus sentidos faz-me sentir como se tivesse olhos e ouvidos em cada continente.

Neil Harbisson fazendo anotações para o retrato sonoro do cantor de rap Le1f (Nova York, 2014). Foto ©Moon Ribas.

Retrato Sonoro de Le1f (2014)

Às vezes posso me encontrar olhando para a imagem tediosa de uma parede de tijolos, e, ainda assim, estar percebendo um lindo pôr-do-sol através do meu olho australiano. Ou eu posso estar em uma conversa extremamente enfadonha com alguém, e, ainda assim, estar ouvindo piadas muitíssimo engraçadas no meu ouvido americano. A antena é uma nova parte do meu corpo e o chip, uma extensão do meu cérebro. Não sinto que estou usando tecnologia, tampouco sinto que estou vestindo tecnologia—sinto que eu sou tecnologia. Sinto que sou um ciborgue.

 

A palavra ciborgue vem da união de duas palavras: “cibernética” e “organismo”. Dependendo de como definimos as palavras “cibernética”, “organismo” e “união”, podemos chegar a uma infinidade de definições para a palavra ciborgue. Sinto que posso me autodefinir como um ciborgue através de três maneiras distintas:

 

Posso me definir como um ciborgue biológico, alguém cujo corpo foi fisicamente alterado devido à cibernética (tenho um chip e uma antena implantados cirurgicamente em minha cabeça);

 

Posso me definir como um ciborgue neurológico, alguém cujo cérebro tem se modificado devido à cibernética—um novo sentido foi criado em meu cérebro em função da união entre a cibernética e o meu corpo;

 

E eu também posso me definir como um ciborgue psicológico, alguém cujo sentido de identidade tem se modificado devido à cibernética. Eu me identifico como ciborgue.

Ciborgues psicológicos não necessariamente precisam ser ciborgues biológicos. Uma pessoa pode não ter nenhum implante, nenhuma modificação neurológica e talvez até mesmo nenhum contato com tecnologia e, ainda assim, se identificar como um ciborgue. Da mesma forma que você pode ter o corpo biológico de um homem e se identificar como mulher.

 

Pessoas que se sentem ciborgues e querem se tornar ciborgues biológicos têm enfrentado problemas similares àqueles enfrentados por transexuais na década de 1950 [nos Estados Unidos]. Naquela época, comitês de bioética não permitiam operações de mudança de sexo porque: (1) pensava-se que o procedimento era desnecessário; (2) pensava-se que o procedimento poderia ser perigoso, e (3) porque havia uma preocupação com a opinião pública em termos do que se pensaria se um homem desse entrada em seus hospitais e saísse de lá mulher. Atualmente, as razões pelas quais comitês bioéticos não aceitam cirurgias ciborgue são exatamente as mesmas: (1) eles julgam ser desnecessárias; (2) eles consideram que as cirurgias podem ser perigosas; e (3) como aconteceu com o meu caso, ficam preocupados sobre o que se pensará se uma pessoa sair de seu hospital com uma antena fincada dentro da cabeça.

Minha cirurgia não foi aceita pelo comitê de bioética ao qual foi submetida e teve que ser feita de maneira clandestina.

 

Pouco a pouco, um número crescente de pessoas enfrentará este problema. Isso porque a quantidade de pessoas que querem se tornar tecnologia está crescendo. De certa forma, TODOS nós estamos—consciente ou inconscientemente—em transição para nos tornarmos ciborgues biológicos. É possível  perceber isso na linguagem. Antes as pessoas costumavam dizer “meu celular está ficando sem bateria”; hoje em dia, a maioria das pessoas diz “eu estou ficando sem bateria” ou “eu estou sem recepção”, em vez de “meu celular está sem recepção”. Já estamos falando sobre tecnologia como se fôssemos tecnologia.

 

E o fato de que a maioria das pessoas aqui, hoje, estão usando tecnologia é também um sinal claro desta transição. Se eu quisesse ser uma mulher, provavelmente começaria a me vestir com roupas femininas e, então, faria uma cirurgia. Da mesma forma, algumas pessoas que vestem tecnologia farão, eventualmente, uma cirurgia. Vocês todos estão travestidos de ciborgue.

 

Algumas pessoas temem que a condição de ciborgues nos fará menos humanos, mas eu acredito no oposto. Tornarmo-nos ciborgues nos fará mais humanos, nos tornará mais próximos da natureza e de outras espécies animais.

Retrato Sonoro do ator Samuel Nicolausson.

Partitura do rosto de Daniel Radcliffe (2007). Foto ©Moon Ribas.

Perceber as luzes ultravioleta e infravermelha faz com que eu me sinta mais próximo dos animais que são capazes de percepcionar estas cores. Ter uma antena me faz sentir mais próximo dos insetos que também têm antenas, e perceber o espaço sideral me aproxima da natureza e do universo.

 

Há muitos sentidos na natureza dos quais poderíamos nos beneficiar: eletrorecepção, magnetorecepção, visão noturna, ecolocalização... Os tubarões podem sentir a direção norte. Nós poderíamos sentir para que lado está o norte, poderíamos ser como os tubarões através da implantação de um compasso em nossa perna, que vibraria todas as vezes em que nos voltássemos para o norte.

 

No entanto, o fato de eu estar conectado com a Internet através da minha cabeça e de utilizar a Internet como um sentido, permite-me ir além da cor. Eu posso me conectar aos satélites e aos telescópios, percebendo e estendendo assim os meus sentidos para o espaço. Isso está acontecendo neste momento. Minha cabeça está conectada ao live stream da Estação Espacial Internacional da NASA. O que significa que o meu corpo está aqui, mas meu sentido de cor está voltado ao espaço.

 

Nossos sentidos não mais precisam estar onde nossos corpos estão. Eu acredito que o próximo palco da exploração humana será a desconexão entre corpo e sentidos. Começaremos a viajar sem os nossos corpos. Em vez de nos deslocarmos com o desconforto de viajar, poderíamos enviar nossos sentidos ao espaço, imprimir a nós mesmos em 3D em outros planetas, e explorar o espaço sem sequer sair de nossas camas. Em outras palavras, a melhor espaçonave é uma cama confortável.

I Hear Colour. Neil Harbisson para a BBC News.

NEIL HARBISSON

 

Neil Harbisson é um artista contemporâneo de origem britânica e cresceu na Catalunha. É ativista ciborgue, mais conhecido por ter uma antena implantada em seu crânio e por ser oficialmente reconhecido como ciborgue por um governo. A antena possibilita-lhe perceber cores visíveis e invisíveis tais quais os infravermelhos e ultravioletas através de ondas sonoras. A conexão de Internet da antena lhe permite perceber as cores do espaço sideral, assim como receber imagens, vídeos, música ou chamadas telefônicas diretamente em sua cabeça através de dispositivos externos como celulares ou satélites. Seus trabalhos investigam a relação entre cor e som, experimentam as fronteiras da percepção humana e exploram o uso da expressão artística através de extensões sensoriais. Em 2010 Harbisson e Moon Ribas co-fundaram a Cyborg Foundation, uma organização internacional que tem por objetivos ajudar humanos a se tornarem ciborgues, defender os direitos dos ciborgues e promover o ciborguismo como um movimento social e artístico.